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Quanto à modalidade da moda

Depois de algum tempo cursando Moda, eu comecei a me sentir incomodada com o “mundinho da moda”, lugar onde as pessoas estavam muito mais preocupadas com aparentar alguma coisa do que ser alguma coisa. Aquele velho dualismo entre essência e aparência. Então pensei, já que eu estou saturada dessa sociedade do espetáculo, vou suprir a parte da essência, quem sabe assim, eu equilibro as coisas e fico mais feliz. Resolvi então, estudar filosofia. Precisava ser algo diametralmente oposto, pois o estereótipo do pessoal da moda remete mesmo à idéia de que quem dá muito valor à aparência, não pode também dar muito valor à essência, e a inserção no mundinho me fez acreditar nisso piamente. E eu acreditava que estudar a essência das coisas seria equivalente a estudar filosofia.

Prestei vestibular e passei, mas para o meu espanto, aquelas pessoas que se diziam tão sedentas de conhecimento e tão focadas na essência das coisas se mostravam tão mais preocupadas em se mostrar detentores do conhecimento, do que em realmente adquiri-lo. Citavam Nietzsche para contrapor alguma idéia de um filósofo clássico, e que ninguém estava enfiando goela abaixo, só estava se explanando a idéia. Escreviam com um rebuscamento sem igual (acredito eu, que para esconder a falta de coerência do que estava sendo escrito, que mesmo muito floreado não deixava de ser, quando não muito ruim, uma tautologia, mas que poderia chegar ao cúmulo da incoerência), não questionavam com o intuito de entender o que estava sendo dito, e sim com o de ganhar uma discussãozinha boba. Claro que não todos agiam desta forma, mas quando alguém se diz ávido de conhecimento ou aquele que “ama a sabedoria” não sobrepuja uma oportunidade de aprender, não fala quando deveria escutar e principalmente, não se mostra conhecedor de algo que não conhece. Foi aí que comecei a pensar em porque que os que se dizem tão interessados na essência das coisas, estavam sempre tão preocupados em aparentar estarem interessados na essência das coisas. E a partir daí, passei a considerar muito sincero, muito coerente e extremamente fascinante o estudo da moda, da dinâmica do que aparenta, do “significante que articula as relações entre os sujeitos sociais a partir da aparência, sendo um ETHOS fundado na lógica da individualidade e da modernidade e marcado pelo novo” (essa definição é da ilustríssima professora Mara Rúbia Sant’Anna, a quem se deve recorrer quando a vida no mundinho começa a sufocar).

Depois dessa experiência, eu comecei a enxergar essência naquilo que aparenta e aparência na essência, mesmo porque algo que é só essência e que não aparenta de forma alguma, não é nem visível.

Não estou dizendo que todos os filósofos ou pretensos filósofos se comportem dessa maneira, por favor, não me interpretem mal, estou dizendo é que nem todos os estilistas ou habitantes do “mundinho fashion” são tão acéfalos quanto o estereótipo e que quando dizem que moda é futilidade ou superficialidade, eu entendo que se só pode ser superficial para aqueles que, já a princípio, não enxergam com profundidade.